Artes, Literatura

A invenção da imprensa e a introdução da escola obrigatória generalizaram a consciência histórica; todos sabiam ler e escrever, passando a viver historicamente, inclusive camadas até então sujeitas à vida mágica: o campesinato proletarizou-se. Tal conscientização se deu graças a textos baratos: livros, jornais, panfletos. Simultaneamente todos os textos se baratearam (inclusive o que está sendo escrito). O pensamento conceitual barato venceu o pensamento mágico-imaginístico com dois efeitos inesperados. De um lado, as imagens se protegiam dos textos baratos, refugiando-se em ghettos chamados “museus” e “exposições”, deixando de influir na vida cotidiana. De outro lado, surgiam textos herméticos (sobretudo os científicos), inacessíveis ao pensamento conceitual barato, a fim de se salvarem da inflação textual galopante. Deste modo, a cultura ocidental se dividiu em três ramos: a imaginação marginalizada pela sociedade, o pensamento conceitual hermético e o pensamento conceitual barato. Uma cultura assim dividida não pode sobreviver, a não ser que seja reunificada. A tarefa das imagens técnicas é estabelecer código geral para reunificar a cultura. Mais exatamente: o propósito das imagens técnicas era reintroduzir as imagens na vida cotidiana, tornar imagináveis os textos herméticos, e tornar visível a magia subliminar que se escondia nos textos baratos. Ou seja, as imagens técnicas (e, em primeiro lugar, a fotografia) deviam constituir denominador comum entre conhecimento científico, experiência artística e vivência política de todos os dias. Toda imagem técnica devia ser, simultaneamente, conhecimento (verdade), vivência (beleza) e modelo de comportamento (bondade). Na realidade, porém, a revolução das imagens técnicas tomou rumo diferente, não tornam visível o conhecimento científico, mas o falseiam; não reintroduzem as imagens tradicionais, mas as substituem; não tornam visível a magia subliminar, mas a substituem por outra. Neste sentido, as imagens técnicas passam a ser “falsas”, “feias” e “ruins”, além de não terem sido capazes de reunificar a cultura, mas apenas de fundir a sociedade em massa amorfa.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Editora HUCITEC, 1985. p. 12.

Somente na comunidade a liberdade pessoal é possível

Literatura

Berman demonstra a presença em Rousseau do mesmo paradoxo que imputa a Marx: se o autodesenvolvimento ilimitado é a meta de todos, como será possível a comunidade? Para Rousseau a resposta, em palavras que Berman cita, é esta: O amor do homem deriva do amor de si. — Estenda-se o amor de si aos outros e ele se transformará em virtude. Berman comenta: Era o caminho da auto-expansão, não o da auto-repressão, que levava ao palácio da virtude… À medida que cada homem aprendesse a expressar-se e a expandir-se a si mesmo, sua capacidade de identificação com os outros homens se dilataria, sua simpatia e empatia para com eles se aprofundaria. O esquema aqui é bastante claro: em primeiro lugar o indivíduo desenvolve o eu, depois o eu pode entrar em relações de mútua satisfação com os outros — relações estas baseadas na identificação com o eu.
[…]
Entretanto, quando examinamos os próprios textos de Marx, encontramos em ação uma concepção muito diferente da realidade humana. Para Marx, o eu não é anterior a, mas sim constituído por suas relações com os outros, desde o início: mulheres e homens são indivíduos sociais, cuja sociabilidade não é subseqüente, mas sim contemporânea à sua individualidade. Afinal, Marx escreveu que somente ao viver em comunidade com outros cada indivíduo tem os meios de cultivar seus dons em todas as direções: somente na comunidade, portanto, a liberdade pessoal é possível. […] Se o desenvolvimento do eu está indissoluvelmente imbricado nas relações com os outros, seu desenvolvimento não poderia consistir jamais numa dinâmica ilimitada no sentido monadológico evocado por Berman: pois a coexistência de outros sempre constituiria um limite, sem o qual o próprio desenvolvimento não poderia ocorrer.

ANDERSON, Perry. (1984). Modernidade e Revolução. Tradução de Maria Lúcia Montes. Novos Estudos, São Paulo, nº 14, 1986. p. 13-14.

KEEP IT REAL

Artes, Literatura

This rare little monkey lived from at least mid-2005 towards the bottom of Ravenscroft St, close to Columbia Rd (postcode: E2 7QB. Map/GPS reference: TQ 33927 82885)
There is only one rule in life. Yes, really… just one. You can never have enough monkeys.
That’s it. Sorry if I have now spoiled the meaning of life for you, but you had to know sooner or later. Oh, and whilst I’m making people’s lives better I’ll let you into a secret: the tooth fairies don’t really leave you money in return for your teeth; it’s your parents.
Never the greatest graffiti (it was rather small and hence the detail was poor) but for a long time it was the only surviving example around. It was then buffed (circa December 2006). There is a photo of a similar monkey in Wall and Piece, but it’s not conclusive evidence that this one is ‘real’. We’ll never totally know.

BULL, Martin. Banksy locations & tours vol 1: a collection of graffiti locations and photographs in London, England. Canada: PM Press, 2011. p. 68-69.

Outros

Cresci acreditando que a sociedade fora sempre assim. Crescer, amadurecer, ou, no meu caso, tornar-se mulher era tornar-se livre. Eu naturalmente poderia, e até deveria, ter uma vida sexual ativa, com diferentes homens, fumar, beber e conhecer o que eu acreditava ser para os não-maduros o submundo: um lugar repleto de sexo sadomasoquista e drogas – muito Mate-me por favorChristiane F.? Eu sempre soube haver pessoas como eu e pessoas como eles, os cidadãos de bem. Faltava-me crescer, e cresci, muito. Hoje tenho 1,78cm.

Leitura recomendada: Michel Foucault, uma entrevista: sexo, poder e política da identidade. http://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/viewFile/4995/3537