Outros

Tantas bocas, corpos, toques, gestos, amores e vulgaridades sussurradas ao pé do ouvido, tantos nomes e caras que esqueci, tantos gemidos e gozos que ainda posso recordar.
Nada?
Momento.
De que importa?
Dique. Exporta. Come torta. De que te importa?

Foi a Cássia que me soprou essa.

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Literatura

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CAPÍTULO 6 – “Os seres divinos”: No mundo antigo, todos, inclusive os hebreus, acreditavam na existência de diversos deuses e semideuses. Em nenhuma parte do Gênesis se afirma que o deus do povo escolhido é o único deus. Ele é o deus deles. Em hebraico ele é chamado de “Yhwh” (Jeová) por alguns dos escritores originais e de “Elohim” por outros. Em outras passagens é chamado de “El-Shaddai”, que significa “deus da montanha”. No capítulo 14, Abraão faz um juramento a “El- Elyon”, o “deus altíssimo” dos cananeus. Cada tribo, cada cidade-estado, tinham seu “deus altíssimo” em seu panteão de deuses, semideuses, demônios e espíritos.

CAPÍTULO 8: Depois que o Dilúvio cedeu, Noé e seus filhos ofereceram e sacrificaram animais, “os queimaram em oferenda”, em sinal de gratidão a Deus. Ele sente o “doce aroma” da carne e decide: “Não amaldiçoarei mais a terra por causa do homem”. Na narrativa dos sumérios, mais bem elaborada e da qual derivou a versão do Gênesis, o personagem que faz o papel de Noé, cujo nome é Ziusudra (ou Uta-Napishti na versão babilônica posterior), também oferece um sacrifício depois do Dilúvio. Os deuses que provocaram esse terrível cataclismo ficaram longe durante os tempos difíceis, “deitados como cachorros na soleira da porta”, e estavam famintos. “Os deuses sentiram o doce aroma” e “se aglomeraram como moscas ao redor dos homens que executavam o sacrifício”.

CAPÍTULO 9: Depois dos acontecimentos traumáticos do Dilúvio, o velho Noé se embebeda e fica sem roupa dentro de sua tenda. Ele é visto por Cam, um de seus três filhos. Cam diz aos dois irmãos que viu o pai sem roupa. Eles comentam isso ao pai, e no dia seguinte Noé amaldiçoa Cam e Canaã, seu filho: “Que seja o mais reles dos escravos de seus irmãos”. Assim, para os brancos cristãos, os negros africanos passaram a ser designados como filhos de Cam, e essa passagem bíblica servia de justificativa moral para sua escravização.

CRUMB, Robert. Gênesis / por Robert Crumb. Tradução: Rogério de Campos, São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2009. p. 216.

Comentários do próprio Robert Crumb de alguns capítulos da História em Quadrinhos do Gênesis, primeiro dos cinco livros que compõem a Torá (são eles: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuterônimo)

Menino potro

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[…] Nimi lhes revelou que os relinchos de potro não eram uma doença, mas uma decisão: cansara das provocações humilhantes e do deboche, e decidira sair e viver sozinho como um menino livre, sem pais nem vizinhos nem sala de aula nem opressores, sem que ninguém na aldeia ou no mundo inteiro lhe dissesse todos os dias o que fazer e o que não: ele escolheu viver sozinho. Viver com sossego e liberdade. Verdade que ele tinha um intervalo bem grande entre os dentes da frente, mas, pelo menos, atrás daqueles dentes idiotas existia uma cabeça e não um cogumelo venenoso como naqueles sujeitos gozadores.

ÓZ, Amós. De repente, nas profundezas do bosque. Tradução: Tova Sender, São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p. 67.

Judíos y italianos

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Fue notable la flexibilidad con que cooperaron figuras de tan diversa extracción ideológica en el seno de un país controlado por un gobierno autoritario. Al observar esto, así como la forma en que, después de una guerra donde el fascismo protagonizó un naufragio catastrófico al cual arrastró a la nación entera, los cineastas de un signo ideológico u otro se las ingenieron para trabajar solidariamente y sin listas negras, viene a la mente la observación de Jorge Luis Borges en el sentido de que en la tierra sólo hay dos pueblos cuya larga vida los hace inmunes a la estupidez: los judíos y los italianos…

LACOLLA, Enrique. El cine en su época: una historia política del filme. Córdoba: Comunic-Arte, 2006. p. 153.

Viajar é sempre um ato predador

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Viajar, o alcance de uma outra dimensão, é sempre um ato predador. Está no inconsciente coletivo o trazer as coisas dessa outra dimensão profanada. Está nos anseios de quem espera por um retorno, desde os tempos em que se conta e se escreve a história, dos tempos da caça e dos predadores. A história das viagens vem dos tempos primitivos, dos viajantes extrativistas, de literatura fantasiosa, dos registros coloniais, dos que iam e voltavam. Com troféus, especiarias, vantagens mercantilistas.

Quem viaja leva o ato de trazer, de subtrair de onde e para onde vai, começando na displicência das bagagens mais vazias nas rotas de ida. O viajante deve voltar tirando proveito da situação, deve provar aos outros que foi avançar no tempo e trouxe benefícios à sua dimensão. Viajar é romper dimensões.

Que sempre haverá tempos mais ou menos afeitos à inocência de quem pensamos explorar ou conhecer. Ou seja, se é que isso se explica, nos vemos tomados por uma compulsão consumista, predadora, diante do que nos fascina como novidade. Não é o acaso. Sentimos diferenças, estranhas diferenças de querer levar de volta, como se a nossa vida fosse dar saltos de melhora e júbilo. Mecanicamente vamos enchendo nossos olhos, nossas mãos, os sentidos todos, as bagagens, os navios e aviões.

O que nos impele aos desejos do ter é a distância de tempo que nos afasta física ou intelectualmente das riquezas e criações de outros povos. Essa distância do tempo mede-se com o espaço de cinco anos. É a vantagem imaginária dos cinco anos que nos garante as boas caçadas e malas cheias de novidades a cada regresso. Vantagem psicológica, sobretudo.

CAKOFF, Leon. Ainda temos tempo. São Paulo: Cosac Naify, 2006. p. 25-26.