Somente na comunidade a liberdade pessoal é possível

Literatura

Berman demonstra a presença em Rousseau do mesmo paradoxo que imputa a Marx: se o autodesenvolvimento ilimitado é a meta de todos, como será possível a comunidade? Para Rousseau a resposta, em palavras que Berman cita, é esta: O amor do homem deriva do amor de si. — Estenda-se o amor de si aos outros e ele se transformará em virtude. Berman comenta: Era o caminho da auto-expansão, não o da auto-repressão, que levava ao palácio da virtude… À medida que cada homem aprendesse a expressar-se e a expandir-se a si mesmo, sua capacidade de identificação com os outros homens se dilataria, sua simpatia e empatia para com eles se aprofundaria. O esquema aqui é bastante claro: em primeiro lugar o indivíduo desenvolve o eu, depois o eu pode entrar em relações de mútua satisfação com os outros — relações estas baseadas na identificação com o eu.
[…]
Entretanto, quando examinamos os próprios textos de Marx, encontramos em ação uma concepção muito diferente da realidade humana. Para Marx, o eu não é anterior a, mas sim constituído por suas relações com os outros, desde o início: mulheres e homens são indivíduos sociais, cuja sociabilidade não é subseqüente, mas sim contemporânea à sua individualidade. Afinal, Marx escreveu que somente ao viver em comunidade com outros cada indivíduo tem os meios de cultivar seus dons em todas as direções: somente na comunidade, portanto, a liberdade pessoal é possível. […] Se o desenvolvimento do eu está indissoluvelmente imbricado nas relações com os outros, seu desenvolvimento não poderia consistir jamais numa dinâmica ilimitada no sentido monadológico evocado por Berman: pois a coexistência de outros sempre constituiria um limite, sem o qual o próprio desenvolvimento não poderia ocorrer.

ANDERSON, Perry. (1984). Modernidade e Revolução. Tradução de Maria Lúcia Montes. Novos Estudos, São Paulo, nº 14, 1986. p. 13-14.

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