Outros

Cresci acreditando que a sociedade fora sempre assim. Crescer, amadurecer, ou, no meu caso, tornar-se mulher era tornar-se livre. Eu naturalmente poderia, e até deveria, ter uma vida sexual ativa, com diferentes homens, fumar, beber e conhecer o que eu acreditava ser para os não-maduros o submundo: um lugar repleto de sexo sadomasoquista e drogas – muito Mate-me por favorChristiane F.? Eu sempre soube haver pessoas como eu e pessoas como eles, os cidadãos de bem. Faltava-me crescer, e cresci, muito. Hoje tenho 1,78cm.

Leitura recomendada: Michel Foucault, uma entrevista: sexo, poder e política da identidade. http://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/viewFile/4995/3537

Um mapa rodoviário de suas viagens pelo Oeste

Literatura, Outros

Vou dizer pra vocês que sempre fui fascinada pelas mãos do meu pai. Elas eram grandes, com unhas e dedos quadrados e longos. Eram mãos quase centenárias, cheias de ruguinhas e veias. Quando ele me pedia para fazer aquele mate, eu me sentava ao lado dele, na ponta do sofá, com a cuia já pronta, compartilhando o chimarrão. Aí ele sempre me choramingava que precisava cortar as unhas, mas mais tarde, depois do mate. Enquanto isso, eu imaginava os desenhos e fotos que eu queria fazer daquelas mãos. A pele poderia ser uma terra se eu utilizasse macro e quem sabe eu pudesse criar uma ponte com aquelas velhas fotos dos signos da pele. Pensei nisso sempre que papeávamos um ao lado do outro. Pensei sempre, mas nunca fiz. E agora? Agora fica o vazio.

 

“Eu me lembro muito bem do aspecto daquela mão: havia graxa nas unhas, como se tivesse trabalhado numa garagem; havia uma âncora tatuada nas costas da mão; havia um band-aid sujo no meio do nó dos dedos, a ponta descolando. O restante das articulações dos dedos estava coberto de cicatrizes e cortes, antigos e recentes. Lembro que a palma da mão era lisa e dura como osso, de tanto manejar os cabos de madeira de machados e enxadas, não a mão que se pensaria poder lidar com cartas. A palma era calejada, e os calos estavam rachados, e a sujeira entranhada nas rachaduras. Um mapa rodoviário de suas viagens pelo Oeste. Aquela palma fez um som arrastado contra a minha mão. Eu me lembro de que os dedos eram grossos e fortes fechando-se sobre os meus, e minha mão começou a ficar estranha e começou a inchar ali naquela minha vareta de braço, como se ele estivesse transmitindo o próprio sangue para dentro dela. Latejava de sangue e força. Floresceu quase que tão grande como a dele, eu me lembro…”

KESEY, Ken. Um estranho no ninho. Rio de Janeiro: BestBolso, 2007. p. 43.

Soy Cuba

Outros

Eu sou Cuba.
Certa vez Cristóvão Colombo desembarcou aqui.
Ele escreveu em seu diário:
“É a terra mais formosa
já vista por olhos humanos.”
Obrigado, Sr. Colombo.
Quando você me viu pela primeira vez
eu sorria e cantava.
Eu saudei as suas velas
com a copa de minhas palmeiras.
Achei que seus navios
trariam felicidade.
Eu sou Cuba.
Meu açúcar, seus barcos levaram.
Minhas lágrimas, eles deixaram.
Que estranha coisa é o açúcar,
Sr. Colombo.
Ele contém tantas lágrimas,
e ainda assim, é doce.

Eu sou Cuba.
Por que foge?
Não veio para se divertir?
Então, divirta-se.
Talvez a imagem não seja alegre.
Não desvie seu olhar.
Veja!
Eu Cuba, para você sou:
cassinos, bares e bordéis.
Mas as mãos destas crianças e velhos
também sou eu.

Eu sou Cuba.
Аs vezes creio que
nos troncos de minhas palmeiras
corre sangue.
Аs vezes parece que o murmúrio
que nos rodeia,
não vem do oceano
mas das lágrimas do povo.
Quem responde por este sangue?
Quem é o responsável
por estas lágrimas?

Eu sou Cuba.
Os homens tem dois caminhos quando nascem:
o da submissão que os esmaga e deteriora
ou o da estrela que ilumina, mas mata.
Escolherás a estrela,
e teu caminho será duro,
marcado pelo sangue.
Mas se um cai em nome de
uma causa justa
milhares de outros
se levantarão em seu lugar.
E quando não houverem mais
pessoas para se levantar
então até as pedras
se erguerão.
Eu sou Cuba.
Os homens tem dois caminhos quando nascem:
Escolherás a estrela,
e teu caminho será duro,
marcado pelo sangue.

Eu sou Cuba.
Eis aqui os homens sobre os quais
escreverão lendas.
Vem de todas as partes,
para a Sierra Maestra.
Vem lutar pela liberdade.

Eu sou Cuba.
Suas mãos antes
pegavam nas enxadas
mas agora há um rifle em suas mãos.
Você não dispara para matar.
Dispara no passado.
Você está disparando
para proteger seu futuro.